Absoluto

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David Gilmour canta e toca guitarra no início do show de sábado, na Allianz Arena, em São PauloUma imagem que não vai sair tão cedo da cabeça muita gente é a de David Gilmour, no alto de seus 69 anos, debulhando a guitarra no inexplicável solo de “Comfortably Numb”, sob uma chuva de raios laser para cima do público. A cena se deu ontem, em frente a umas 40 e tantas mil pessoas no Allianz Parque, em São Paulo, e foi o arremate de uma apresentação impecável. Em um período de três horas, recordações não faltarão – e falaremos delas mais adiante -, mas este clássico do Pink Floyd é uma das peças mais relevantes da história do rock e, se já contém fortes doses de emoção na versão gravada, imaginem sob as mãos calosas de um dos maiores guitarristas que esse mundo já teve, capaz de tirar um som de guitarra absolutamente peculiar e inimitável.
Mas momentos são momentos e não é possível não salientar, durante essas três horas de show, o trabalho de Gilmour, sentado como vovô sábio deslizando os dedos sobre uma lap steel guitar em “High Hopes”. A música, do tardio álbum “The Division Bell”, do Pink Floyd, lançado em 1994, bem conhecida do público mais jovem, ganha um inesperado destaque, dado o bom gosto com que o guitarrista colori uma passagem que, em disco, nem tem tanta relevância. Em dado momento, parece que vai faltar corda para as mãos dele deslizar, e o resultado é de uma beleza singular que toca em cheio o fundo da alma. O que torna, de antemão, inviável a execução desse mesmo trecho por um ordinário virtuose. E é por isso por isso que David Gilmour está entre os bambambãs da guitarra desde que o rock foi criado.O baixista Guy Pratt, o bom baterista Steve DiStanislao e David Gilmour com sua guitarra surradaGilmour, contudo, vai longe na hora de revirar o baú e traz “Astronomy Domine”, o single de 1967 que marca a fase psicodélica, ainda com o guitarrista e maluco de pedra Syd Barret. A música revive no telão montado no centro do palco as bolhas coloridas feitas com óleo e água despejados em uma calota de vidro, partindo para um efeito hipnótico sobre a plateia. Em forma de círculo e ladeada por vários spots de luz, a tela tem formato circular e não chega a ser novidade, já que era usada pelo Floyd, mas garante grande momentos complementares às músicas, mesmo sem a alta resolução dos nossos tempos. Seja exibindo imagens sem pé nem cabeça típicas do rock progressivo e do próprio Pink Floyd, ou de modo mais agressivo em direção ao público, é parte indispensável na experiência proposta por David Gilmour.
Barret, já falecido, foi a inspiração para Gilmour e Roger Waters comporem “Wish You Were Here”, tocada logo no início da primeira parte. A música se transformou, com o passar dos anos, na canção oficial da saudade de alguém, e, na cola do violão dedilhado de Gilmour, é cantada, assoviada e cantarolada em uníssono pelo povaréu. Com um repertório repleto de clássicos – e muita coisa sobra, são mais de 30 anos de banda – o guitarrista insere músicas da carreira solo, sobretudo do disco novo, o apenas razoável “Rattle That Lock” (saiba mais). E o público até que conhece algumas, como o faixa-título, a segunda da noite, na qual Gilmour, como em um toque mágico, descola solos e evoluções de guitarra excepcionais, num aperitivo do que aconteceria depois. Outra é “In Any Tongue”, também salva pelo modo de Gilmour tocar, e “The Girl in the Yellow Dress” fornece um desnecessário sotaque jazzy num show de rock.David Gilmour com o violão usado em ‘Wish You Were Here’, canção oficial da saudade de alguémÉ quando o andamento dá uma caída na segunda parte, ainda com “Fat Old Sun”, do álbum “Atom Heart Mother” (era para ser “Summer ’68”!), e “On a Island”, faixa-título do álbum solo anterior, no mesmo bloco. Mesmo assim, David Gilmour enriquece as músicas esmerilhando a guitarra em boas improvisações instrumentais da banda. Nela se destacam o parceiro de última hora Phil Manzanera, em outra guitarra, e o saxofonista brasileiro João Mello, que reforça como a música do Pink Floyd é tão boa que admite com brilhantismo até um dos instrumentos mais chatos de que se tem notícia. Em “Money”, com uma iluminação amarelo outro, o sax é fundamental, e uma improvisação atrasa só para provocar a virada de bateria que dá início ao solo, coisa fina mais uma vez. O baterista Steve DiStanislao vai bem em procedimentos que incluem a adição de um sino de verdade e o kit adaptado para a ótima introdução de “Time”, naturalmente uma das músicas mais esperadas, que abre o bis.
Além de dois vocalistas de apoio, quase todos contribuem par encorpar a voz de Gilmour, bastante castigada, diga-se de passagem. Que o diga “Run Like Hell”, que encerra o show, antes do bis, de uma forma absolutamente hipnótica. A música é uma das poucas que ele compôs em “The Wall”, e é surpresa em um repertório que evita na maior parte do tempo a marca registrada de Waters. No fim das contas a comparação é inevitável, e se David Gilmour é um virtuose no estilo único de tocar, canta mais, mesmo com o gogó cansado, e usa e abusa da parte visual, o espetáculo de Roger Waters, centrado em “The Wall” (relembre) é insuperável e incomparável com qualquer outro show de rock feito até então. Nessa briga de cachorro gigante, mesmo com a volta do Pink Floyd descartada dia após dia, quem ganha é o público, que tem à disposição dois espetáculos sensacionais. Não deixe de ir a nenhum deles e seja feliz.Vista geral da exuberante Allianz Parque, valorizada pelo espetáculo visual do show de David GilmourSet list completo:
1- 5 A.M.
2- Rattle That Lock
3- Faces of Stone
4- Wish You Were Here
5- A Boat Lies Waiting
6- The Blue
7- Money
8- Us and Them
9- In Any Tongue
10- High Hopes
Intervalo
11- Astronomy Domine
12- Shine On You Crazy Diamond
13- Fat Old Sun
14- On an Island
15- The Girl in the Yellow Dress
16- Today
17- Sorrow
18- Run Like Hell
Bis
19- Time
20- Breathe (Reprise)
21- Comfortably Numb
Source: ROCK EM GERAL